Com o tema “Corpos que Pesquisam, Saberes que Transformam”, estudantes do Programa de Iniciação Científica Júnior apresentam projetos desenvolvidos ao longo do percurso formativo da OBERERI
Jessyka Faustino, jornalista.
A Olimpíada Brasileira de Relações Étnico-Raciais, Afro-Brasileiras, Africanas e Indígenas – Obereri, realiza, nos dias 15 e 22 de agosto, a Mostra Científica do Programa de Iniciação Científica Júnior (PICJr) do ciclo 2025 – 2026, com o tema “Corpos que Pesquisam, Saberes que Transformam – Iniciação Científica Jr., Saberes Plurais e Juventudes Negras”, a atividade reúne estudantes de diferentes regiões do país para a apresentação de seus projetos de pesquisa.
Realizada de forma on-line, por meio do Google Meet, com transmissão ao vivo pelo YouTube, a Mostra constitui uma etapa importante do percurso formativo dos/as bolsistas do PICJr. Ao longo dos dois dias, os/as estudantes apresentarão a versão inicial de suas pesquisas, compartilhando questões, metodologias, reflexões e resultados construídos a partir das experiências vivenciadas durante o programa.
A programação está organizada em três eixos. No dia 15 de agosto, serão realizadas as apresentações dos Eixos 1 e 2, respectivamente das 9h30 às 12h e das 14h às 17h30. Já no dia 22 de agosto, o Eixo 3 será apresentado das 9h30 às 12h, com dez minutos destinados a cada trabalho.
Os projetos apresentados evidenciam a diversidade de temas e perspectivas mobilizados pelos/as jovens pesquisadores/as. Entre as pesquisas estão estudos sobre educação antirracista, letramento racial, racismo recreativo, racismo estrutural e ambiental, saberes quilombolas e indígenas, democracia, juventudes, representatividade negra na mídia, ancestralidade, memória, resistência quilombola, periferias, rap e batalhas de rima, entre outros.
Da olimpíada à iniciação científica
A Mostra é resultado de uma trajetória que começou antes mesmo da primeira edição da OBERERI. Em dezembro de 2023, a ABPN teve aprovado, no âmbito da chamada CNPq/MCTI/FNDCT nº 03/2023, o projeto de iniciação científica vinculado à Olimpíada. A proposta foi construída coletivamente com a participação de representantes de cerca de 20 Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas e grupos correlatos integrantes do CONNEABs/ABPN.
A criação da OBERERI parte do compromisso de aproximar a ABPN da educação básica e ampliar, junto às escolas públicas, o debate sobre as relações étnico-raciais, em diálogo com as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 e com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Desde sua concepção, o projeto também estabeleceu como uma de suas frentes a formação científica de estudantes da educação básica.
A primeira edição da OBERERI, realizada em 2024, alcançou escolas e estudantes de diferentes regiões do país e consolidou a iniciativa como uma importante ação nacional de educação antirracista. Segundo dados divulgados pela ABPN, a primeira edição mobilizou mais de 29 mil participantes, envolvendo milhares de equipes escolares.
Entre os desdobramentos da primeira edição esteve justamente o Programa de Iniciação Científica Júnior, destinado a estudantes contemplados pela OBERERI. A proposta busca ampliar a formação crítica, científica e reflexiva dos/as estudantes, possibilitando o aprofundamento das temáticas trabalhadas na olimpíada e o desenvolvimento de ações de ensino, pesquisa e extensão voltadas à transformação das realidades vivenciadas por diferentes comunidades.
Em sua primeira edição, o PICJr acompanhou 54 estudantes bolsistas, que participaram de encontros formativos sobre educação antirracista, estéticas da resistência, corporeidade, epistemologias negras e indígenas, entre outros temas. A culminância desse processo ocorreu com a realização da primeira Mostra Científica do programa, consolidando a pesquisa como parte fundamental da experiência formativa proporcionada pela OBERERI.
Uma segunda edição, novos caminhos de pesquisa
A segunda edição da OBERERI ampliou essa trajetória e deu continuidade ao compromisso de formar estudantes capazes de produzir conhecimento a partir de suas próprias experiências, territórios e questões sociais.
Nesse percurso, o PICJr passou a trabalhar com a perspectiva de que a produção científica não é neutra nem universal, mas situada histórica, social e corporalmente. É nesse sentido que a temática da Mostra – “Corpos que Pesquisam, Saberes que Transformam” – afirma as experiências e trajetórias das juventudes negras como elementos legítimos da produção científica.
A proposta formativa incentiva que os/as estudantes desenvolvam projetos autorais, articulando pesquisa, criação e compromisso social em diálogo com diferentes áreas do conhecimento. Os trabalhos podem transitar pelas ciências humanas e sociais, ciências exatas e biológicas, artes e propostas interdisciplinares, desde que apresentem coerência temática, fundamentação teórica e clareza metodológica.
Os projetos também são acompanhados pela produção de um relatório de pesquisa ou artigo científico e de um produto prático. Esse produto pode assumir diferentes formatos, como performances artísticas, produções visuais, experimentos científicos, textos, zines, projetos comunitários, intervenções pedagógicas, podcasts, documentários e outras produções midiáticas.
Mais do que uma exigência formativa, essa diversidade de formatos expressa uma compreensão ampliada sobre o próprio fazer científico: pesquisar também pode significar criar, narrar, experimentar, intervir, produzir memória e construir outras formas de interpretar o mundo.
Juventudes negras produzindo ciência
Os trabalhos que chegam à Mostra Científica materializam esse princípio. As pesquisas partem de problemas concretos e de diferentes territórios, mobilizando experiências escolares, memórias comunitárias, expressões culturais, produções artísticas e questões sociais.
No Eixo 3, por exemplo, aparecem pesquisas sobre o Quilombo Machadinha, ancestralidade e memória cultural, representatividade negra na mídia, história negra de Ilhabela, resistência quilombola em Santa Catarina, a RESEX Prainha do Canto Verde, escravização e abolicionismo, educação antirracista, periferias e rap.
Essa diversidade evidencia uma das principais características do PICJr: a possibilidade de que jovens pesquisadores/as reconheçam suas próprias vivências e seus territórios como lugares legítimos de produção de conhecimento.
A Mostra Científica, portanto, não representa apenas a apresentação de trabalhos ao final de uma formação. Ela constitui um espaço de escuta, reconhecimento e circulação da produção intelectual, científica, artística e social das juventudes, reafirmando a ciência como um campo plural e comprometido com a justiça social, a equidade racial e a transformação da realidade.
Ao longo de sua trajetória, a OBERERI vem construindo uma ponte entre a educação básica, a pesquisa e a educação para as relações étnico-raciais. A Mostra Científica dá mais um passo nessa direção ao colocar jovens estudantes no centro do processo de produção e apresentação do conhecimento.
São corpos que pesquisam, porque suas experiências também produzem perguntas. São saberes que transformam, porque a ciência pode ser instrumento de leitura crítica, criação e intervenção na realidade.

