MÍDIA E RESPEITO A DEMOCRACIA

Entrevista com a professora Renísia C. Garcia Filice (Vice coordenadora área de PAA/ Abpn.Líder Geppherg- FE/UnB).

Reportagem: Tulane Souza

Imagem: Júlio Take

 

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Frente ao discurso utilizado na grande mídia antes e depois dos ataques à Praça dos Três Poderes, em Brasília, no último domingo, 08 de janeiro de 2023, objetivamos nesta entrevista, problematizar algumas das potenciais mudanças na opinião pública e por conseguinte, em alguns meios de comunicação de massa. Embora tenhamos evidências de que o discurso fascista engendrado e concretizado pela extrema direita tenha sido subestimado pelos veículos de comunicação, confiamos numa mudança política no uso da língua.

 

 

Quem explica melhor sobre essa mudança no clima do “politicamente correto” da mídia é a professora Renísia C. Garcia Filice – http://lattes.cnpq.br/4879162784374781

Tulane Souza: Professora, diante deste cenário golpista que estamos enfrentando, e a maneira como a mídia está tratando esse assunto, sugere, no meu ponto de vista, que foi urgente uma mudança brusca no discurso, e a empatia pelos direitistas extremos não deve ser mais efetuada como estava sendo antes desses ataques, havia uma certa tolerância com o típico bolsonarista. E aí a minha pergunta é a seguinte: como a senhora acha que a mídia vai tratar esse assunto a partir de agora? Se vão começar a mudar o discurso propondo mais empatia às pautas de esquerda, ou se ainda assim, vão continuar inflamando essa situação perigosíssima que o Brasil está passando?

 

Profª Renísia Garcia: […] Bom, a primeira coisa é que eu acho que a gente tem que pensar que as narrativas que norteiam a mídia brasileira são várias, múltiplas, refletem o estado de ânimo da sociedade brasileira, mas, especificamente, eu destaco duas. Uma delas é a pauta que associa ao longo dos anos, os partidos de esquerda, em particular o PT, ao comunismo e uma pseudo possibilidade de expropriação da propriedade privada; uma outra narrativa que também é muito forte, e é uma narrativa mais liberal baseada na Revolução Francesa, que tem por princípio a perspectiva da igualdade, da liberdade e fraternidade. Principalmente, uma perspectiva de democracia baseada na igualdade entre os cidadãos e cidadãs, por mais incoerente que seja esta perspectiva à luz da desigual realidade brasileira.

E aí, nós enquanto ABPN, enquanto pesquisadores/as negros e negras que trabalhamos numa perspectiva interseccional de gênero, raça, classe, e historiadora que sou, que pensa o Brasil como sendo um país que se constrói numa desigualdade econômica marcada pela raça, nem sempre evidenciada pela mídia, ou mesmo pela sociedade brasileira como um todo, nós questionamos estas formas de narrar o Brasil e suas históricas incongruências. 

Então, é preciso compreender que o 8 de janeiro de 2023, o monstruoso e animalesco ataque, já vinha sendo gestado. É sobre isto que precisamos falar. Nós não vimos por parte da sociedade brasileira uma indignação à altura dos “pequenos e recorrentes “ ataques de caráter racializado, étnico, sexista e LGBTfóbico que formatou as aberrações direcionadas às populações mais vulneráveis feitas pelo mandatário maior, Jair Messias Bolsonaro, e a falange de pessoas que o rodeavam vociferando absurdos que foram tolerados. Ameaças à democracia, ameaças de golpes, somavam-se a ações cotidianas graves, que antecederam o dia 12 de dezembro – o ensaio, e o dia 08 de janeiro, o “gran finale” (será?).

O que nós vimos assistindo ao longo desses quatro anos, por parte da mídia, antes do 8 de janeiro, foi um discurso dúbio que hora se pautava por uma crítica aos partidos de esquerda e ao PT, como sendo favorável a Venezuela, a Cuba e toda aquela narrativa que reforça a ideia de um Partido Vermelho, comunista que queria tornar nossa bandeira vermelha; meio que seguindo a linha definida pelo bolsonarismo (e aí falamos da grande mídia, televisiva e escrita, e jornais menos conhecidos). Outra parte dessa mídia também – que “temia” o PT -, se assustava por vezes com o comportamento do governo derrotado bolsonarista, que atingia frontalmente todos os valores que a sociedade brasileira educada que foi por uma perspectiva eurocêntrica, pautada na ideia de igualdade, liberdade e fraternidade; que foram escrachadamente confrontados pelo governo Bolsonaro, pelos seus absurdos e pelas suas posturas.

É aí que entra a grande discussão, a que tensiona as narrativas atuais, por que Bolsonaro – quer queiramos, quer não, ele pautou os direitos humanos, tamanho seu comportamento agressivo, um desrespeito total contra as mulheres, os/as indígenas, as pessoas negras, contra LGBTQIA+, então, é nesses termos que até o momento atual – antes do dia 08/01, a mídia oscilou entre estar contra o PT e estar contra o Bolsonaro, e precisar blindar de alguma forma o PT. Por quê? Porque o PT em vários momentos se colocou muito respeitoso em relação à democracia e aos direitos humanos. Então, por menos que a mídia não tenha, e nunca tenha tido simpatia pelo PT, pelo Partido dos Trabalhadores, ela precisou do PT para poder neutralizar os discursos bélicos racistas e sexistas do governo Jair Bolsonaro.

É nesse cenário que nós vimos agora, com a vitória do governo de esquerda, esses ataques que estão sendo cometidos pelos fascistas-bolsonaristas que já existiam (anunciados, como disse), mas, que mostraram a sua face extremamente violenta e destrutiva, e que estão com essas posturas [mesmo depois da gravidade dos ataques terroristas e antidemocráticos] minando a raiz daquilo que a sociedade brasileira também tem um flerte, que é o princípio da Democracia. Por que eu digo que é um flerte? Porque na verdade nós tivemos quase 50% da população brasileira que votou em Bolsonaro, isso significa que nós somos uma sociedade dividida, e essa divisão se revelou também na mídia brasileira. Cenário esse, que vem mudando porque Bolsonaro e seus apoiadores desde policiais, militares, empresários e pessoas comuns, mobilizadas por uma veia fascista e antidemocrática que entrou em colapso ao ver negros/as, indígenas e trabalhadores/as subirem a rampa do “seu Palácio do Planalto”. Até uma cadela vira-lata. Isso foi o gatilho para as cenas que estarrecem o Brasil e o mundo. Ou seja: passaram de todos os limites, é o que dizem. Então, havia um limite.

Essa é a grande questão. No cenário atual há uma mudança que já estava oscilando antes da vitória do Lula, entendido muito mais pelo discurso tímido em defesa da democracia e da  liberdade. Essa tendência que nós estamos vendo reforçada. Um discurso mais fortalecido porque o governo Bolsonaro derrotado, deixou a sua semente de discórdia, de destruição, de violência e de desrespeito, e o que eles fizeram na Praça dos Três Poderes foi algo inadmissível e inaceitável para todo e toda cidadã brasileira, que pactua do Estado Democrático de Direito, da concepção de democracia.

Assim, eu diria que a tendência que nós estamos vendo hoje é uma aproximação maior para com o PT, e da sua veia democrática, devido a uma fala que pauta os Direitos Humanos, os valores democráticos, o respeito que o PT sempre teve, mas, a mídia sempre insistia em nublar dando espaço para os devaneios bolsonaristas,  uma ideia de Comunismo e da pseudo expropriação da propriedade privada, igualando por vezes petistas e bolsonaristas – para aparentar uma ideia de “neutralidade”. Ao fazerem isto eram injustas com o PT, e flertavam com os absurdos dos bolsonaristas. Agora sem alternativa ela [a mídia], se agarra a narrativa da democracia, narrativa que o PT sempre teve.

 

Tulane Souza: O que a mídia vai falar agora de Lula, do PT e da esquerda, na sua opinião, diante desses acontecimentos e das ações de Lula nesse contexto caótico. Você acredita que eles possam ter mais empatia em relação ao discurso da Esquerda, por que é uma mudança necessária?

 

Profª Renísia Garcia: Conforme o arrazoado geral que fiz, o que nós estamos vendo é um comportamento de indignação Nacional diante do que aconteceu na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Eles [os fascistas-bolsonaristas] simplesmente extrapolaram todos os valores civilizatórios respeitáveis pela sociedade brasileira, foi de uma agressão tão absurda –  um homem branco, enrolado na bandeira nacional, subir numa mesa do STF, descer as calças e ameaçar defecar, é algo tão grotesco, tão absurdo, que certamente a repulsa geral têm caminhado para evidenciar os princípios da democracia e da igualdade. Foi a volta à barbárie.

Na verdade, os atos de 08/01/2023 foi o encontro e a visibilidade total do governo bolsonarista. Essas pessoas vivem uma realidade paralela e nessa realidade paralela não há regras. As regras são estabelecidas por eles/as, sendo assim, a invasão violenta, na Câmara, no Senado e no Planalto, são reveladores da motivação interna destrutiva que essas pessoas sempre possuíram. E a sociedade brasileira, assim como a mídia – num falso “politicamente correto”, uma neutralidade vexatória, optou por amenizar.

O que nós vimos hoje na sociedade brasileira e na mídia é uma indignação total, mas, é uma indignação total que precisa levar à reflexão e a mea-culpa. São pessoas que quando o Bolsonaro idolatrou o Ustra; quando Bolsonaro falou para a deputada Maria do Rosário:  — Não te estupro porque você é feia! Quando o Bolsonaro falou que o negro mais leve pesava 07 arrobas, em relação aos quilombolas; Quando ele disse que precisávamos civilizar os indígenas,  em total desrespeito aos povos indígenas, ao seu modo de ser e de estar no mundo, essa sociedade contemporizou, e a mídia foi conivente. Isto precisa ser dito. A sociedade brasileira foi omissa.

Então o que nós vemos hoje é uma sociedade brasileira estarrecida com aquilo que ela não enfrentou e com aquilo que ela não quis dar visibilidade, de forma direta enfrentar com os rigores da lei as posturas que estavam sendo gestadas na mente do governo Bolsonaro e dos seus filhos no gabinete do ódio. Se ela (a mídia) tivesse denunciado sem misturar PT e PL com a distinção que a situação requeria, ela não teria sido também tão agredida, quanto ela foi. Ou seja, quando a sociedade e a mídia brasileira optam por ser coniventes com a barbárie, ela vai sofrer os frutos dessa barbaridade. E hoje, passado o susto, estamos assistindo o início de narrativas que tentam recuperar uma cidadania dos/as fascistas, pessoas brancas, maioria classe média, sem passagem pela polícia – dizem, até então; “perseguidas” pelo STF.

Nós estamos todos juntos e misturados numa sociedade que se diz democrática. Então quando você não se indigna com a violência que é direcionada aos negros, negras, mulheres, indígenas e população LGBTQIA+, você fique bem esperto, porque essas pessoas doentias se voltarão contra você.

Qual o cenário futuro? A ferida, o câncer Bolsonaro, foi escancarado para o mundo ver. Estamos nós agora envergonhados, porque pessoas em todos os âmbitos, não só na mídia,  mas do governo federal, do governo estadual, do governo municipal, das instituições como igrejas, família, escolas, foram omissas e mais, muitos participaram dos atos golpistas, direta e indiretamente. O verme da violência fascista não é recente, ele foi alimentado pela  omissão. Há de se punir rigorosamente estas pessoas, porque possuem na fachada o que se entende como “cidadãos e cidadãs do Bem”.

 

Tulane Souza: Como a senhora acha que será o discurso do Presidente Lula daqui pra frente? Ele já se pronunciou emergencialmente, diante do ocorrido, mas, como a senhora acha que ele vai tratar os golpistas? Você acha que o discurso de Lula terá o apoio da mídia, ou não?

 

Prof.ª Renísia Garcia: Como eu disse, como eles vão tratar isso? Com indignação, o cenário é de indignação, de revolta, como se as pessoas tivessem sido pegas de surpresa, como se elas não soubessem que as falas do Bolsonaro, que as posturas de Bolsonaro, que elas não eram algo superficial, eu chamo isso de “ concreto-pensado” na minha tese de doutorado (Filice, 2011), eu trabalhei sobre isso . A cultura do racismo, a cultura do sexismo, ela não nasce descolada de algo que é estrutural, de uma sociedade que é desigual, de uma sociedade que é pautada no privilégio de pessoas brancas, então as pessoas brancas não vivem a morte dos jovens negros, das mulheres negras, não vivem a morte dos indígenas, das pessoas LGBTQIA+, como algo extremamente inadmissível. Elas não vivem e não viveram, elas não conseguem compreender que a disputa, o privilégio econômico levou a uma invisibilidade em relação a desumanidade que estavam sendo impostas a esses segmentos, nós negros e negras sempre soubemos disso.

E mesmo que eu não seja hoje, uma pessoa vulnerável economicamente, eu sou uma mulher negra e sou atravessada pelo racismo onde quer que eu vá, eu sei quem maltrata as pessoas negras, porque quando eu chego em determinados lugares, eu sinto o impacto desse racismo, desse sexismo e desse classicismo, mesmo não sendo eu pobre. Ou seja, é uma violência que incide sobre os corpos negros. Isto me permite afirmar: raça marca a classe no Brasil, mas as pessoas não se revoltam com o racismo como deveriam. É só ver a dificuldade da mídia de chamar fascistas de fascistas, os ataques de bárbaros, de bárbaros, porque são pessoas de maioria branca e classe média, “pessoas, como disse, de bem”. Sempre foram um blefe.

O que nós vemos hoje nessa terceira gestão do governo Lula é uma fala muita mais comprometida com as pautas dos Direitos Humanos do que nós vimos na primeira gestão, e na segunda gestão. Muito embora, o governo Lula, por mais que haja fragilidades nas políticas propostas, na forma que elas foram implementadas, principalmente, do primeiro para o segundo mandato, na continuidade das pautas tanto do ponto de vista do avanço da legislação quanto da sua materialidade, sei porque eu fiz pesquisa sobre isso; o que nós vemos hoje no terceiro mandato de Lula, é um compromisso na narrativa muito maior com a pauta dos Direitos Humanos, das mulheres, dos negros e negras, dos indígenas das pessoas LGBTQIA+ e das pessoas com deficiência, essas pautas estão mais visíveis, e isso se deu, como eu disse, principalmente em função do comportamento absurdo, abjeto do governo Bolsonaro, da sua família e do gabinete do ódio.

O que eu estou vendo hoje é um amadurecimento contraditório que nasce do fundo do poço, nós chegamos no fundo do poço! Então não tem pra onde correr! Ou enfrenta o bicho agora, ou o que mais vai acontecer? Eles entraram e destruíram o coração da materialidade da institucionalidade democrática do País, é isso que Brasília significa. O que eles fizeram? Tripudiaram, debocharam, simplesmente defecam nos nossos valores mais caros.

O que não pode ocorrer é daqui um pouco tudo isso ser esquecido, e não se materializar no fortalecimento do Ministério dos Direitos Humanos, do Ministério da Igualdade Racial e do recém criado Ministério dos Povos Indígenas, e também do Meio Ambiente. Ministérios com pouca visibilidade, poucos recursos e vistos – enfrentemos, como simbólicos.

Que haja transversalmente a possibilidade do trânsito de todas essas pastas de estarem dialogando com o Ministério da Fazenda, do Planejamento, do Desenvolvimento Social, da Educação e por aí vai, aqueles que de fato têm os recursos, e que isto não continue assim.  Ou seja, essa indignação não pode ser só do ponto de vista teórico, da narrativa,  ela tem que ser do ponto de vista prático,  no sentido de termos políticas públicas que vão de fato se comprometer em mudar a situação de violência, precariedade e esquecimento que essas pessoas negras, indígenas, quilombolas, mulheres, pobres, trabalhadores rurais, vários segmentos, foram designadas ao longo do tempo.

O cenário é de esperança, de mudanças difíceis, mas positivas, que  carecem de enfrentamentos efetivos, e esse só se dá com um governo que em todas as suas instâncias se comprometa em materializar de fato essas perspectivas democráticas de tratamentos iguais para pessoas que são historicamente diferentes, preservar as diferenças culturais e enfrentar as desigualdades econômicas.

Nos Mistérios que se abandonem duas hipocrisias fatais das instituições racistas brasileiras: 1. deixar de falar DE indígenas, negros/as, LGBTQIA+, PCD, mulheres, e passar a falar COM. Que essas pessoas estejam representadas em TODOS os Ministérios, e que haja trânsito e que possam “sentar a mesa” para pensar políticas transversais e interseccionais; 2. Dotação Orçamentária. Que os Ministérios dos DH, Mulheres, Indígenas, Igualdade Racial e Meio Ambiente, tenham recursos suficientes. Sem dinheiro nada é feito. Ou ficarão sob a tutela de outros Ministérios, para poderem desenvolver políticas para a diversidade e inclusivas?. Qualquer desenho fora disto, é novamente, flertar com a direita fascista. Precisamos de mudanças urgentes.

Para finalizar, ver como terroristas, fascistas, vândalos bolsonaristas que destruíram a Esplanada dos Ministérios, é nomear o que estava sendo tratado como liberdade de expressão. Nunca foi liberdade de expressão, nós sempre soubemos disso.

 

É importante que essas instituições públicas, indivíduos e coletivos, que acolheram essas pessoas e mais, as pessoas privadas que usaram seus recursos econômicos para alimentar esses ataques, sejam duramente punidas. 

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