Julho das Pretas: memória, luta e protagonismo das mulheres negras

Nathália Maria Rodrigues Azevedo – RedeEducom/ASCOM/ABPN
Iraneide Soares da Silva – Diretora Executiva/ABPN

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O mês de julho tornou-se um importante marco de mobilização política das mulheres negras no Brasil. Conhecido como Julho das Pretas, esse período reúne organizações do movimento negro, universidades, coletivos, instituições públicas e a sociedade civil em uma agenda de debates, formações, manifestações culturais e incidência política voltadas ao enfrentamento do racismo, do sexismo e das desigualdades sociais.

Mais do que uma campanha, o Julho das Pretas é uma estratégia coletiva de fortalecimento da luta das mulheres negras e de valorização de suas contribuições para a produção de conhecimento, a democracia, os direitos humanos, a cultura, a educação e a construção de políticas públicas.

Como surgiu o Julho das Pretas?

O Julho das Pretas foi criado em 2013 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, organização feminista negra sediada em Salvador (BA), em articulação com organizações e redes de mulheres negras, especialmente da região Nordeste.

A iniciativa nasceu com o propósito de ampliar a visibilidade do 25 de julho, transformando uma data comemorativa em um mês inteiro de mobilização política, produção de conhecimentos, formação e fortalecimento da agenda das mulheres negras no Brasil.

Desde então, o Julho das Pretas consolidou-se como uma das principais articulações nacionais do movimento de mulheres negras, reunindo centenas de atividades em diferentes estados brasileiros e reafirmando o protagonismo das mulheres negras como sujeitas políticas e produtoras de saberes.

Por que o dia 25 de julho?

O Julho das Pretas tem como referência o 25 de julho – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, instituído em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana.

O encontro representou um marco histórico na articulação internacional das mulheres negras, que passaram a construir uma agenda comum de enfrentamento ao racismo, ao sexismo e às desigualdades vividas pelas populações afrodescendentes na América Latina e no Caribe.

No Brasil, a data ganhou reconhecimento oficial em 2014, com a promulgação da Lei nº 12.987, que instituiu o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, homenageando a liderança quilombola Tereza de Benguela, símbolo da resistência negra e da luta pela liberdade.

Por que um mês inteiro de mobilização?

Ao longo dos anos, o movimento de mulheres negras compreendeu que um único dia não seria suficiente para dar visibilidade à diversidade de pautas que atravessam suas experiências e lutas.

Por isso, o Julho das Pretas consolidou-se como uma agenda nacional voltada ao debate sobre justiça racial, equidade de gênero, saúde da população negra, educação antirracista, participação política, cultura, memória, ancestralidade, Bem Viver e produção de conhecimentos.

A iniciativa também evidencia que as mulheres negras ocupam papel central na formulação de alternativas para uma sociedade democrática, comprometida com a igualdade racial, os direitos humanos e a justiça social.

O compromisso da ABPN

Para a Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), o Julho das Pretas reafirma o compromisso com a valorização das mulheres negras como intelectuais, pesquisadoras, educadoras, cientistas, artistas, lideranças comunitárias e produtoras de conhecimentos fundamentais para compreender e transformar a sociedade brasileira.

Em 2026, essa celebração ganha um significado especial. Entre os dias 28 e 31 de julho, durante o COPENE 2026, em Brasília (DF), pesquisadoras/es, estudantes, docentes, movimentos sociais e instituições de todo o país estarão reunidos para fortalecer a produção científica comprometida com a justiça racial, a equidade e a democracia.

Celebrar o Julho das Pretas é reconhecer que as mulheres negras constroem memórias, produzem ciência, preservam ancestralidades e seguem transformando o presente e o futuro do Brasil.

Referências

BRASIL. Lei nº 12.987, de 2 de junho de 2014. Institui o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12987.htm. Acesso em: 2 jul. 2026.
ODARA – Instituto da Mulher Negra. Julho das Pretas. Disponível em: https://institutoodara.org.br/julho-das-pretas/. Acesso em: 2 jul. 2026.
ODARA – Instituto da Mulher Negra. E-book Julho das Pretas (2017). Salvador: Odara, 2017. Disponível em: https://institutoodara.org.br/wp-content/uploads/2019/05/Ebook_Julho-das-Pretas-2017.pdf. Acesso em: 2 jul. 2026.

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