IV COPENE NORDESTE DISCUTE DUAS DÉCADAS DAS AÇÕES AFIRMATIVAS E O FUTURO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS RESGATANDO O LEGADO DE PALMARES

O evento aconteceu entre os dias 11 e 15 de novembro em três polos na cidade de Maceió: Universidade Federal de Alagoas, o Instituto Federal de Alagoas e a Praça Multieventos da Pajuçara

Escrito por Helen S.
Revisado e Publicado por Yure Gonçalves
Fotos por ASCOM/ABPN e Comissão de Comunicação do IVCOPENE

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O IV COPENE NE movimentou o estado de Alagoas com a ciência feita com e por pessoas negras de todo Brasil, das mais diversas experiências e espaços institucionais, cumprindo a missão da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN) de divulgação, formação, fomento à produção cultural, conhecimento científico, ensino, pesquisa e extensão acadêmico-científica, sobre temas de interesses das populações negras do Brasil. Nessa direção, a presidenta da ABPN, profa. dra. Iraneide Soares, comentou sobre a importância dos COPENES regionais e do fortalecimento da Associação com a realização do evento:

“Os COPENES regionais são espaço que esses sujeitos vêm trazer suas pesquisas, suscitar outras pesquisas, conhecer e a partir das pesquisas se inspirar. Neles, para além da negritude, nós discutimos as diversidades temáticas dessa negritude. E nesse processo, as pessoas buscam se associar à ABPN, um movimento que tem ocorrido e sido fundamental para o fortalecimento de mais esse projeto da organização”, destacou a presidenta.

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Mesa de abertura inesquecível “Memorial Zumbi: histórias das lutas antirracistas no brasil”

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Congregando grandes referências históricas do Movimento Social Negro e da luta antirracista no Brasil, a mesa foi coordenada por Maria de Fátima Viana (Coordenadora do NEABI/IFAL Maceió), composta por Carlos Alves Moura (Advogado e Primeiro Presidente da Fundação Palmares); Zezito Araújo (Ex-Diretor do NEABI/UFAL e Ex-Secretário de Proteção e Defesa das Minorias do Estado de Alagoas); Kabengele Munanga (antropólogo e professor brasileiro-congolês); Carlos Benedito Rodrigues da Silva (Antropólogo e Professor da UFMA); Helena Theodoro (Filósofa e Escritora); João Jorge (Presidente da Fundação Cultural Palmares); Wanda Chase (jornalista e ativista do Movimento Negro).

 

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Com o Auditório Oscar Sátyro lotado de congressistas de todo Brasil, essas referências foram ouvidas com atenção pelas pessoas presentes contando as estratégias de luta e resistência do movimento negro do norte e nordeste para driblar as estruturas racistas, promover mudanças sociais e produzir avanços e rupturas para o fortalecimento da população negra. Durante o resgate histórico desse processo de sedimentação do movimento negro, os presente lembraram figuras históricas que embora não contempladas pela história oficial, são de muita importância para os brasileiros. Emocionados/as com as lembranças também contavam como essas trajetórias também se cruzavam com suas trajetórias no enfrentamento ao racismo, a partir de seus espaço na educação, na tecnologia e na cultura.Movimento Negro).

A história da construção do Parque Memorial Quilombo dos Palmares e as subidas para a Serra da Barriga foram o mote para essa discussão que emocionou as pessoas participantes, as quais eram majoritariamente negras e puderam encontrar com suas referências que estão dentro e fora dos livros e ouvi-las contar a história que o racismo não permitiu ser contada nos espaços de formação oficiais.

Em 1980, a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) convidou um grupo de intelectuais e ativistas negros para participar de uma reunião para discutir a criação do Parque. Na reunião, o grupo discutiu o projeto original e propôs alterações significativas daquele que tinha um enfoque turístico, e, foi então reformulado para enfatizar a importância histórica, cultural e política do quilombo.

“A gente coloca o Quilombo dos Palmares sempre no passado. Mas se nós formos pensar nessa organização que existiu a partir de Aqualtune, foi a base da formação do movimento negro brasileiro (…) se nós tivemos uma raiz, foi a Serra da Barriga.”, destacou Zezito Araújo, um dos participantes desse grupo e também integrante da comissão que propôs a criação da Fundação Cultural Palmares em 1988, a qual foi presidida primeiramente por Carlos Moura, um dos presentes na mesa.

A subida para a Serra da Barriga

Realizado pela primeira vez em Alagoas, o Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as (COPENE) – região Nordeste, em um ano de retomada das políticas pela equidade racial, e dentre as evidências disso, a presidência da Fundação Palmares na pessoa do João Jorge, também presente na mesa histórica fez questão de subir a Serra junto a congressistas. Muitos deles e delas, subindo a Serra pela primeira vez.

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Um desses estudantes foi Yure Gonçalves, mestrando em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE): “Foi um misto de sentimentos, alegria de estar com os meus e as minhas, indo para um lugar histórico extremamente significativo para o povo negro. Não gosto de ver Palmares como lugar de fuga, mas um lugar de refúgio. Prefiro ver como lugar de possibilidades, de novas perspectivas, lugar de encontro e retomada de si e do que é nosso. Ao mesmo tempo também sou atravessado por um sentimento de indignação, por perceber que para a liberdade ser conquistada foi necessário o sangue de nossa ancestralidade, a liberdade nunca foi dada, ela foi e ainda é duramente conquistada.”

O movimento social negro tem chamado atenção para o esvaziamento do sentido de resistência do Parque Memorial Quilombo dos Palmares, a fim de que o mesmo não se torne um lugar de turismo sem memória e respeito à ancestralidade presente no território. 

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Nesse sentido, constar na programação do IV COPENE NE subir a Serra, possibilitando que as novas gerações de pesquisadores/as negros/as possam ter contato com essa história de resistência, demonstra grande importância para ir de encontro à descaracterização do espaço e reforçar a necessidade de reverenciar a luta e a resistência das populações negras.

Baile Preto e a Cultura Negra em movimento

A cultura negra é rica e diversa, e não se limita apenas ao texto escrito. O corpo negro é alimentado pela música, pela dança e pelas mais diversas maniefestações artísticas e culturais. Por isso, IV COPENE NE realizou o “Baile Preto do COPENE”, uma festa que celebra a cultura afro-brasileira e afro-diaspórica.

O baile foi mais do que uma festa; foi também um evento político, uma importante forma de reafirmar a presença e a importância da cultura negra na formação cultura da sociedade brasileira. O evento também contribuiu para a valorização da cultura negra local e para a promoção da diversidade cultural no município, oportunizando que artistas locais e nordestinos pudessem potencializar seus trabalhos em um evento tão significativo.

O Baile Preto do COPENE contou com artistas de diferentes estilos musicais, como samba, reggae, rap, coco e afrobeat. Dentre as atrações, artistas locais, como Naty Barros, Tequilla Bomb, DJ Obama e Coco das Aqualtunes. E, diretamente da Bahia, Ministereo Público Sound System, DJ ZEBB (baiano radicado em João Pessoa) .

Juliana Gomes, estudante do curso de Jornalismo na UFAL e participando do COPENE pela primeira vez, comentou que participa do Baile Preto do COPENE: “foi uma experiência incrível, estar em uma ambiente repleto de pessoas negras/os/es festejando, foi maravilhoso… Poder dançar, me divertir com os meus, não tem nada que pague isso. Sem falar na quantidade de pessoas bonitas; nunca tinha me sentido tão à vontade em uma festa.”, disse a estudante.

Eventos que se somam: IV COPENE e Vamos Subir a Serra

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Foto: Aprigio Vilanova

Evento afrocultural Vamos Subir a Serra é realizado há sete anos pelo Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô, uma entidade do movimento negro alagoano, vinculada aos Agentes de Pastoral Negros do Brasil (APNs).

O evento é a maior feira afroempreendedora do estado de Alagoas, contando com uma ampla programação de música, dança, palestra, gastronomia, artesanato e beleza. Contou com grandes referências dos mais velhos como Kabengele Munanga, Lepê Correia, Vanda Machado, Matilde Ribeiro, mas também com as novas gerações como Bárbara Carine e Manoel Soares.

As encruzilhadas do nordeste: mês da Consciência Negra, 23 anos de ABPN e o COPENE NORDESTE

As histórias cruzadas no Nordeste do Brasil quando o assunto é o enfrentamento ao racismo se confluem entre a fundação da ABPN que aconteceu durante o I COPENE Nacional, realizado em novembro de 2000 na cidade do Recife, marcando portanto, no presente ano, 23 anos de existência. Nascida em um mês que enfatiza a resistência e o legado de Zumbi dos Palmares, a ABPN, que realiza os COPENES regionais e nacional bianualmente, contando com a parceria de associados/as para a organização em cada região, tem sido uma das principais vozes no cenário nacional para discutir as pautas de interesse das populações negras.

Com o encerramento do mês de novembro, que além do segundo pacote pela igualdade racial, contou com a aprovação no Congresso Nacional do Projeto de Lei 3268/21 que torna o Dia da Consciência Negra e Dia de Zumbi feriado nacional. O texto segue agora apenas para sanção presidencial.

Fazendo fronteira geográfica ao norte e oeste com Pernambuco, berço da ABPN e do primeiro COPENE, o IV COPENE NE saiu de Alagoas neste ano para em 2025, cruzar a fronteira a sudoeste e chegar à Bahia.


A ABPN agradece mais uma vez a todas as aproximadamente duas mil pessoas que participaram do IV COPENE NE e de toda a organização local do evento. Nos vemos na Bahia em 2025! Continuaremos a fazer Palmares de novo sempre que for preciso!

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