Afrocientistas Empossadas como Imortais pela Academia Juvenil Acreana de Letras: Um Marco Histórico e Inspirador

O Projeto Afrocientista tem contribuído para a formação de jovens negros/as mais autoconfiantes e protagonistas de sua própria história e futuro

Escrito por Silvani Valentim; Helen S. e Jéssica Faustino

Revisado e publicado por Helen Silva e Maria V. Gonçalves

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Imagem: Divulgação/Academia Juvenil Acreana de Letras (AJAL)

O Projeto Afrocientista, elaborado em 2018 pela Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN) em parceria com o Instituto Unibanco (IU) e que desde 2023 conta com a parceria do Ministério da Educação (MEC) através da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (SECADI), tem intuito de despertar a vocação científica e incentivar talentos entre estudantes negros/as. 

Este ano, as afrocientistas Sara Ketlen e Ana Evelyn, ambas de 17 anos, cursando o último ano do ensino médio,  receberam o título de jovens imortais pela Academia Juvenil Acreana de Letras (AJAL). As estudantes participaram respectivamente da 2ª e 3ª edição do projeto Afrocientista a partir do Núcleo de Estudos Afro-brasileiro e Indígena (Neabi) da Universidade Federal do Acre (UFAC), sob coordenação da profa. dra. Flávia Rocha. 

A profa. dra. Flávia Rocha destacou que as Afrocientistas são, além de tudo, artistas do saber. E que é com muita felicidade que aprecia cada conquista delas:

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“O Projeto Afrocientista é um norteador e propulsor de letramento racial crítico para os jovens do ensino médio. A Ana Evelyn e a Sara são exemplos lindos e resistentes da importância desse projeto. Quando publicizamos as ações desenvolvidas no projeto, uma das intenções é que se veja como se dá a busca tão necessária a esse conhecimento, e como a Lei 10.639/03 pode ser devidamente aplicada para esses jovens”, enfatizou a professora.

Fala, professora Flávia!

Sara Albuquerque, afrocientista da 2ª edição 2022, chamou a atenção da professora receptora do projeto na escola, devido ao seu senso crítico em relação à sociedade. Ao entrar no Afrocientista era perceptível o seu desenvolvimento através do letramento racial crítico, nas rodas de conversa, debates, palestras, ela estava sempre anotando, fazendo mapas conceituais e logo isso, começou a ser “palpável”, através das suas poesias autorais. No seminário Afrocientista, ela produziu um varal literário com vinte poesias autorais, recitou algumas poesias no seminário, abordando os temas do seu dia a dia e as rodas de conversas.

Ana Evelyn, afrocientista da 3ª edição 2023, é uma bela escritora. Ao chegar no projeto já demonstrou suas habilidades com a literatura e a compreensão crítica sobre a temática racial. Com o passar do desenvolvimento das atividades, podemos perceber que ela se apropriou da temática. No Seminário Afrocientista, demonstrou mais uma vez o que a escrita literária é para ela e como o seu envolvimento fortaleceu a ela e ao Projeto.

A profa. dra. Silvani Valentim, Coordenadora Nacional do Afrocientista e Diretora de Relações Internacionais da ABPN, destacou a importância do Projeto enquanto um incentivador da carreiras da juventude negra:

“Esta premiação confirma que a instrumentalização sobre o fazer ciência e a iniciação científica pautada no letramento científico e racial contribuem para uma formação cidadã que potencializa as possibilidades da juventude negra realizar-se educacionalmente. Ao saudar nossas jovens negras, afrocientistas premiadas, saudamos a todos/as os bolsistas da educação básica, da graduação, a coordenação do Afrocientista da UFAC na pessoa da profa. Flávia, os familiares, as professoras e professores, gestoras/es, comunidades escolares e comunidades negras. Saudamos os NEABS, NEABIs e grupos correlatos. Este projeto da ABPN que tem sido apoiado financeiramente e vigorosamente defendido pelo Instituto Unibanco (IU) evidencia a crença e esperança que temos nas nossas jovens negras e negros, na educação pública e de qualidade para todos e todas, na Educação das Relações Raciais.”

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Conheça mais sobre as jovens afrocientistas imortais por elas mesmas:

Ana Evelyn

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Imagem: Divulgação/Academia Juvenil Acreana de Letras (AJAL)

O Afrocientista pra mim foi uma virada de chave imensa na minha vida. A partir dele eu comecei a ver o mundo de uma maneira que eu não pensei que poderia ver. Eu nunca imaginei ver o mundo por essa ótica, por uma ótica mais crítica em relação à racial do Brasil. Além de ter essa mudança na minha percepção ao externo, ao outro, eu também tive um avanço gigantesco em relação à minha visão de mim mesma, a minha autodeclaração, a me compreender enquanto uma mulher negra que mora no Acre, no Norte, dentro da Amazônia.

Perceber que o produzir científico não tava ali na minha cotidianidade apenas pra que eu observasse, mas pra que eu também produzisse ele. Eu passei a perceber que a minha cotidianidade, a minha rotina, as minhas vivências, elas também podiam se tornar ciência. Que a minha convivência no meu bairro, no meu estado, na minha escola, ela também poderia se tornar ciência. Ela é ciência.

Em 2022 eu publiquei meu primeiro livro: “Dois Milhões de Segundos”, que foi financiado pela Fundação Elias Mansur de Cultura daqui de Rio Branco, no Acre. Um livro acredito que seja a coisa mais incrível que eu já fiz até o momento. Eu sou muito feliz e muito grata por isso. 

Eu sempre consumi todo tipo de leitura, apesar de eu ter uma preferência pelo suspense e pela distopia também, mas a presença de escritores negros mesmo eu sendo uma menina negra, era muito baixa e eu não tinha essa consciência. Então o Projeto Afrocientista trouxe pra esse âmbito uma coisa que eu pensei que eu dominava. E eu tava perdendo um espaço tão grande da literatura, e uma literatura que me toca e me abarca de uma maneira tão incrível.

Hoje as temáticas étnico-raciais estão muito mais presentes nas minhas produções. Comecei a escrever também muito slam, por conta do Afrocientista. Hoje eu interajo com os grupos de slam do meu estado.

Sara Albuquerque

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Imagem: Divulgação/Academia Juvenil Acreana de Letras (AJAL)

Conheci o Afrocientista por uma professora, ela conversou com a outra professora e me ajudou a entrar no projeto e ter o benefício da bolsa que me permitiu ter maior liberdade para estudar, descansar, escrever e ter outros tipos de experiências dentro e fora do projeto.

Fiz amizade com as palavras desde a infância, gostava de escrever escondido, guardava minhas palavras só pra mim, era meu lugar secreto. Desde sempre, tive influência da minha irmã mais velha, que sempre me aproximou dos livros e da leitura, ela é uma das minhas inspirações pra vida, acredito que seja importante ter e ser alguém assim para o outro.   

Quanto a vivência dentro do projeto Afrocientista, ressignifiquei muitas coisas, por que eu sou eu, de onde vim e o que a escrita representa na minha vida. Dentro do projeto, pude identificar as minhas paixões e conhecer professores que até hoje me apoiam nessa trajetória e acreditam no meu potencial. 

Sobre ser uma jovem imortal pela AJAL:

“Ainda estou aprendendo o que significa se tornar uma Jovem Imortal da Academia Juvenil Acreana de Letras. É uma honra e um prazer imensurável poder pertencer a essa instituição. Para mim, que estou construindo uma rua de tijolos, essa conquista é uma conquista ímpar! E é muito mais do que imaginava conquistar. Hoje sei que tudo que sou sempre esteve aqui. Estou sendo lapidada”, disse Sara Albuquerque.

“Eu não sei muito bem responder a essa pergunta porque eu ainda tô tentando formular o que sentir sobre isso. Mas, eu acho que o que define bem é uma sensação muito grande de esperança, de você poder fazer parte da mudança. Eu acho que isso é a coisa mais importante. Até pra quem já perdeu a esperança na literatura, quem perdeu a esperança na mudança por meio da educação. Poder estar lá e ter voz, uma voz ativa nesse processo de mudança é maravilhoso, é incrível. A minha vida e a minha experiência é a própria viva de que a literatura, a palavra, muda as pessoas e ela salva vidas. Eu digo sem nenhum medo que a literatura salvou a minha vida”, destacou Ana Evelyn.

Há muito sabemos, por meio das abordagens sócio-construtivistas e uma práxis pedagógica antirracista, que nossas/os estudantes não são tábulas rasas, ou possuem um capital cultural de valor parco. Pelo contrário, são culturas e saberes enriquecidos pela história, ciência, sociedade, religiões e civilizações negras, africanas e afrodiaspóricas. Por isso continuamos investindo, acreditando e apoiando o presente e o futuro dos/as nossos/as estudantes como potências!

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*A AJAL, fundada em 22 de abril de 2015, é uma instituição que recebe jovens escritores/as acreanos/as de idades entre 12 e 22 anos, representando um investimento no futuro da cultura acreana. Ao nutrir os talentos literários da juventude, a Academia possibilita que a voz vibrante do Acre continue a ecoar no mundo das letras, realizando isso através de projetos em escolas públicas, saraus de poesia, publicações de livros dos acadêmicos, programas e oficinas literárias e diversas outras iniciativas.

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