ABPN alerta para aumento da violência contra mulheres em dias de jogos de futebol e reforça a urgência de políticas públicas com perspectiva racial

Nathália Maria Rodrigues Azevedo – RedeEducom/ASCOM/ABPN
Iraneide Soares da Silva – Diretora Executiva/ABPN
Luiz Herculano de Sousa Guilherme  – Diretor de Relações Institucionais/ABPN

nathalia-maria-rodrigues-azevedo-futebol-jogo-copa-violencia-genero

Estudo do Instituto Natura e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta crescimento dos casos de violência contra mulheres em dias de partidas de futebol e evidencia como o racismo estrutural amplia a vulnerabilidade das mulheres negras.

A Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN) manifesta preocupação diante dos resultados do estudo “Violência contra Mulheres e o Futebol”, desenvolvido pelo Instituto Natura em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O levantamento evidencia que, em dias de partidas de futebol, há um aumento significativo dos registros de violência contra mulheres, revelando como desigualdades de gênero e raciais seguem estruturando a realidade brasileira.

Reconhecendo o futebol como uma das maiores expressões culturais do país, a ABPN ressalta que o problema não está no esporte, mas na persistência de uma cultura marcada pelo machismo, pelo racismo estrutural e pela naturalização da violência contra as mulheres. Grandes eventos esportivos, que mobilizam milhões de pessoas, tornam ainda mais urgente o fortalecimento de políticas públicas de prevenção, proteção e responsabilização dos agressores.

Estudo aponta aumento expressivo da violência em dias de jogos

A pesquisa analisou microdados de boletins de ocorrência registrados entre 2015 e 2018 nas capitais de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre, cruzando essas informações com o calendário de jogos da Série A do Campeonato Brasileiro.

Os resultados demonstram que, em dias de partidas:

  • os registros de ameaça contra mulheres aumentam 23,7%;
  • os casos de lesão corporal crescem 20,8%.

Quando a partida acontece na cidade do clube mandante, o cenário torna-se ainda mais preocupante: os registros de agressões físicas aumentam 25,9%.
Segundo a antropóloga Beatriz Accioly, gerente do compromisso pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura, os dados mostram que determinados contextos associados ao futebol podem funcionar como catalisadores de violências já sustentadas por relações marcadas pela desigualdade de gênero.
A especialista reforça que o futebol não provoca a violência, mas que determinados modelos de masculinidade, associados à competitividade, ao controle e à agressividade, podem ser intensificados nesses contextos, sobretudo quando combinados ao consumo excessivo de álcool e à tolerância social às violências contra as mulheres.

Mulheres negras seguem entre as principais vítimas

Um dos aspectos mais preocupantes do estudo refere-se ao recorte racial.
Nas capitais de Salvador, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, as mulheres negras representam metade ou mais das vítimas registradas em casos de ameaça e agressão física durante dias de jogos. Em Salvador, elas correspondem a 85% dos casos de lesão corporal, evidenciando como o racismo estrutural e o sexismo atuam de forma articulada na produção das violências.

Para a ABPN, esses dados reafirmam que não é possível compreender a violência contra as mulheres sem considerar a dimensão racial. As mulheres negras enfrentam formas sobrepostas de discriminação que articulam racismo, sexismo e desigualdades socioeconômicas, produzindo maior exposição à violência e, muitas vezes, menores condições de acesso às políticas de proteção e à justiça.

Os dados também mostram que a maior parte das mulheres que registram ocorrências de ameaça possui entre 30 e 49 anos, enquanto os casos de lesão corporal concentram-se principalmente entre mulheres de 18 a 29 anos.

A violência continua acontecendo, principalmente, dentro de casa

O levantamento revela ainda que, na maioria dos casos registrados em dias de jogos, os autores das agressões são companheiros ou ex-companheiros das vítimas.
Os resultados reforçam que a violência doméstica permanece como uma das mais graves expressões da violência de gênero no Brasil, demonstrando que o ambiente familiar continua sendo um dos espaços de maior risco para milhares de mulheres.

O cenário também aparece no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, segundo o qual, somente em 2024, foram registrados 1.067.556 chamados de violência doméstica pelo telefone 190, uma média de duas ligações por minuto.

O levantamento aponta ainda que mais de 100 mil medidas protetivas foram descumpridas por agressores em 2024, evidenciando que, embora existam instrumentos legais de proteção, sua efetividade ainda enfrenta importantes desafios.
Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, o maior número desde a tipificação desse crime na legislação brasileira. Em aproximadamente oito de cada dez casos, o autor era o companheiro ou ex-companheiro da vítima.

O Mapa Nacional da Violência de Gênero também registra que, em média, quatro mulheres são assassinadas diariamente no país apenas por serem mulheres.

Grandes eventos esportivos exigem ações preventivas

Com a realização de competições de grande alcance, especialistas alertam para a necessidade de reforçar os serviços de atendimento às mulheres, ampliar campanhas de conscientização e fortalecer estratégias de prevenção durante os períodos de jogos.

Pesquisas internacionais também apontam para esse cenário. Estudos realizados pela Universidade de Lancaster, na Inglaterra, identificaram aumento dos casos de violência doméstica durante Copas do Mundo, enquanto pesquisa da Universidade de Warwick observou crescimento significativo das ocorrências relacionadas ao consumo de álcool após partidas da seleção inglesa.
Esses resultados reforçam que o problema não está no esporte ou no resultado das partidas, mas em contextos sociais marcados por desigualdades de gênero, pelo consumo abusivo de álcool e pela permanência de padrões de masculinidade violenta.

Educação antirracista e políticas públicas são fundamentais

Para a ABPN, enfrentar a violência contra as mulheres exige uma atuação articulada entre Estado e sociedade, envolvendo políticas públicas permanentes, fortalecimento da rede de proteção, produção de conhecimento científico e ações educativas comprometidas com os direitos humanos.

Nesse sentido, a educação desempenha papel estratégico. A promoção da educação para as relações étnico-raciais, prevista pela Lei nº 10.639/2003, aliada às políticas de promoção da igualdade de gênero, contribui para desconstruir estereótipos, enfrentar práticas discriminatórias e promover novas formas de convivência baseadas no respeito, na equidade e na valorização da diversidade.

O esporte, enquanto importante patrimônio cultural brasileiro, também pode ser um espaço de transformação social, promovendo campanhas de conscientização, enfrentando o racismo e o sexismo e fortalecendo uma cultura de paz.

A ABPN reafirma seu compromisso com a produção de conhecimento e com a defesa de políticas públicas que enfrentem, de maneira integrada, o racismo, o sexismo e todas as formas de violência. Combater a violência contra as mulheres, especialmente contra as mulheres negras, é condição indispensável para a construção de uma sociedade democrática, justa e comprometida com os direitos humanos.

Onde buscar ajuda

Mulheres em situação de violência podem buscar apoio pelos seguintes canais:

  • Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, disponível 24 horas por dia, de forma gratuita;
  • Polícia Militar – 190, em situações de emergência;
  • Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) ou qualquer delegacia de polícia para registro da ocorrência.

Nenhum jogo, rivalidade esportiva ou resultado de uma partida pode servir de justificativa para qualquer forma de violência. Torcer deve significar celebração, convivência e respeito — nunca medo, agressão ou violação de direitos.

Fontes: Pesquisa Violência contra Mulheres e o Futebol (Instituto Natura e Fórum Brasileiro de Segurança Pública); Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025; Mapa Nacional da Violência de Gênero (Observatório da Mulher contra a Violência/Senado Federal); estudos das Universidades de Lancaster e Warwick; Câmara dos Deputados; e reportagem “Violência contra mulheres cresce em dias de jogo, e a Copa do Mundo liga o alerta”, publicada pela Mídia NINJA.

Leia também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para o conteúdo