2 de Julho: Salvador torna-se capital simbólica do Brasil e reforça a centralidade da Bahia na história da Independência

Nathália Maria Rodrigues Azevedo – RedeEducom/ASCOM/ABPN

A sanção da Lei nº 15.177/2026, que institui Salvador como capital simbólica do Brasil durante as celebrações do 2 de Julho, representa um importante reconhecimento da centralidade da Bahia na consolidação da Independência brasileira. Mais do que um gesto protocolar, a medida reafirma a importância de ampliar o olhar sobre os processos históricos que deram origem ao Estado brasileiro, valorizando a participação popular e o protagonismo de sujeitos historicamente invisibilizados nas narrativas oficiais.

A legislação, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estabelece que, durante as celebrações do 2 de Julho, a capital baiana sediará simbolicamente os atos oficiais do Governo Federal relacionados à data. A iniciativa possui caráter exclusivamente simbólico e não altera Brasília como capital da República nem o funcionamento das instituições federais.

A Independência também foi construída na Bahia

A narrativa tradicional da Independência brasileira costuma privilegiar os acontecimentos de 7 de setembro de 1822, quando foi proclamado o rompimento político com Portugal. Entretanto, a historiografia demonstra que a separação não se consolidou de forma imediata.

Na Bahia, tropas portuguesas permaneceram ocupando parte do território e os confrontos militares prolongaram-se por meses. Somente em 2 de julho de 1823, com a retirada definitiva das forças portuguesas de Salvador, consolidou-se a vitória das tropas brasileiras na província.

Por essa razão, o 2 de Julho ocupa lugar singular na memória nacional. A data celebra não apenas um episódio militar, mas o desfecho de um amplo processo de mobilização política e popular que contou com a participação de diferentes segmentos da sociedade baiana.

Como observa o historiador Hendrik Kraay, a festa do 2 de Julho transformou-se, ao longo do século XIX, em um dos principais símbolos da identidade política baiana e da memória da Independência brasileira.

Protagonismo negro e participação popular

As pesquisas sobre a Independência da Bahia evidenciam que homens e mulheres negros, pessoas escravizadas e libertas, indígenas, trabalhadores, artesãos, pequenos proprietários e integrantes das camadas populares participaram ativamente dos confrontos e da sustentação logística das tropas brasileiras.

Esse protagonismo vem sendo progressivamente recuperado pela produção historiográfica, contribuindo para ampliar a compreensão sobre quem foram os sujeitos da Independência.

Entre os personagens historicamente documentados destacam-se Maria Quitéria de Jesus, incorporada às tropas brasileiras durante a guerra, e Joana Angélica, cuja morte tornou-se um dos símbolos da resistência baiana.

Maria Felipa de Oliveira ocupa um lugar fundamental na memória popular da Independência da Bahia. Embora sua trajetória seja amplamente celebrada pelas manifestações culturais e pelos movimentos sociais, parte da historiografia ainda debate os registros documentais sobre sua atuação, o que não diminui sua importância como símbolo da participação das mulheres negras na luta pela liberdade e na construção da memória nacional.

Essa distinção entre memória, tradição e documentação histórica reforça a necessidade de ampliar as pesquisas sobre a participação das populações negras na Independência brasileira.

Memória, pesquisa e justiça histórica

Para a Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), reconhecer Salvador como capital simbólica do Brasil durante as celebrações do 2 de Julho representa um importante avanço na valorização da memória nacional e na construção de uma narrativa histórica mais plural.

A produção científica desenvolvida por pesquisadoras e pesquisadores negros tem contribuído para evidenciar que a formação do Brasil não pode ser compreendida sem o protagonismo das populações negras e indígenas, cujas experiências foram, por muito tempo, marginalizadas pela historiografia tradicional.

Valorizar o 2 de Julho significa reconhecer que a Independência brasileira foi resultado de um processo coletivo, marcado por disputas, resistências e pela atuação de diferentes sujeitos históricos. Significa, também, reafirmar o compromisso com uma história que dialogue com a diversidade de experiências que constituem o país.

Referências

BRASIL. Lei nº 15.177, de 1º de julho de 2026. Institui Salvador (BA) como Capital Nacional do Brasil durante as comemorações da Independência do Brasil, no dia 2 de julho.

KRAAY, Hendrik. Dias de festa: o 2 de Julho e as comemorações da Independência na Bahia (1824–1900). São Paulo: Editora Unesp, 2013.

JANCSÓ, István (org.). Independência: História e Historiografia. São Paulo: Hucitec; Fapesp, 2005.

REIS, João José. A elite baiana face aos movimentos sociais: Bahia, 1824-1840. São Paulo: Brasiliense, 1987.

ALBUQUERQUE, Wlamyra Ribeiro de. Algazarra nas ruas: comemorações da Independência na Bahia (1889–1923). Campinas: Editora Unicamp, 1999.

FUNDAÇÃO PEDRO CALMON. 2 de Julho: Independência da Bahia. Salvador: Governo do Estado da Bahia.

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