A Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) (ABPN) vem a público manifestar seu irrestrito apoio, profunda admiração e solidariedade à nossa associada, Profa. Dra. Joana Célia dos Passos, em face de sua renúncia ao cargo de Vice-Reitora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
A trajetória da Profa. Joana na gestão da UFSC (2022-2026) foi marcada por uma defesa intransigente da pauta antirracista e da dignidade humana. Sob sua liderança, a universidade alcançou avanços que a posicionam como referência na construção de condutas institucionais contra as violências decorrentes de demarcadores sociais. Destacamos:
- Políticas de Igualdade: Promoção da igualdade com novas normas que ampliaram direitos a estudantes e trabalhadores da UFSC.
- Justiça e Memória: Encaminhamento das recomendações da Comissão da Memória e da Verdade ao Conselho Universitário.
- Acesso e Permanência: Luta pela ampliação e equiparação do valor das bolsas e pelo direito à permanência com dignidade para grupos historicamente marginalizados.
- Articulação Social: Abertura das portas da universidade para o diálogo constante com coletivos e movimentos sociais.
- Internacionalização: Adoção de uma política que valoriza conexões estratégicas com o Sul Global.
É com profunda indignação que observamos a repetição de práticas de violência política de gênero e racismo no ambiente acadêmico. O relato da Profa. Joana sobre a sistemática centralização de decisões e o silêncio diante de ataques sofridos revela como o racismo estrutural opera para deslegitimar a autoridade de uma mulher negra na liderança.
A exclusão da Vice-Reitora e o controle estratégico e orçamentário confinados a um único homem ou ao seu círculo de amigos demonstram que a paridade de gênero e racial é apenas retórica quando não há o direito real à discordância. Tais condições negligenciam a luta histórica de todas as mulheres negras da UFSC, da academia em geral e dos espaços de poder da sociedade.
A ascensão de pesquisadores e pesquisadoras negras a cargos de gestão, fruto das conquistas nossas lutas, em particular das ações afirmativas, traz consigo uma responsabilidade política e ética profunda. A experiência da Profa. Joana serve como um alerta e um chamado ao realinhamento. Não podemos perder a referência do nosso lugar de origem e das lutas coletivas que nos permitiram ocupar esses espaços. Os princípios inegociáveis na nossa atuação que deve ser pautada na gestão democrática e antirracista, combatendo a centralização e a burocracia que asfixiam as instituições. Nossa atuação na gestão deve ser um instrumento para a defesa da dignidade humana e para o resgate da competência e humanidade na administração pública.
À nossa querida colega, gestora e militante Joana, reafirmamos nossa incondicional admiração. Sua coragem em não aceitar a reprodução de condições opressoras fortalece a todos nós. Seguimos juntos na construção de uma universidade e sociedade que sejam, de fato, democráticas e antirracistas.
Ouro Preto, 21 de fevereiro de 2026.
Diretoria da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN)

