A Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN) manifesta profundo pesar pelo falecimento da nossa grande professora, pesquisadora, artista e militante Zélia Amador de Deus, aos 74 anos, nesta terça-feira, 8 de setembro.
Referência incontornável da luta antirracista na Amazônia e no Brasil, Zélia Amador de Deus construiu uma trajetória marcada pela defesa da educação, da ciência, da democracia, dos direitos da população negra e pela construção de uma sociedade comprometida com a superação do racismo e das desigualdades.
Para a ABPN, a despedida de Zélia representa também a perda de uma das intelectuais negras que ajudaram a construir a própria história da organização e a fortalecer a presença da população negra na produção científica brasileira. Sua trajetória esteve profundamente vinculada à afirmação de uma intelectualidade negra comprometida com a transformação social e com a produção de conhecimentos a partir das experiências, saberes e lutas da população negra.
Professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), Zélia dedicou décadas ao ensino, à pesquisa, à extensão e à gestão universitária. Foi vice-reitora da instituição e uma das principais protagonistas da construção das políticas de ações afirmativas na universidade, contribuindo para ampliar o acesso de pessoas negras e de outros grupos historicamente excluídos ao ensino superior.
Sua atuação, contudo, ultrapassou os muros da universidade. Cofundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), Zélia foi uma das vozes fundamentais do movimento negro amazônico. Sua militância articulou educação, cultura, ciência e luta política, tornando-se referência para diferentes gerações de ativistas, estudantes, docentes e pesquisadores/as negros/as.
Em âmbito nacional e internacional, integrou a mobilização brasileira que participou da III Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban, em 2001, momento decisivo para a consolidação de uma agenda internacional de enfrentamento ao racismo e para o fortalecimento das ações afirmativas no Brasil. Sua atuação contribuiu para a construção de políticas que transformaram o acesso da população negra às universidades públicas brasileiras.
A relação de Zélia Amador de Deus com a Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN) ocupa lugar especial na memória da entidade. Uma das fundadoras da ABPN, Zélia também exerceu a presidência da Associação no biênio 2010–2012, contribuindo diretamente para seu fortalecimento e consolidação como espaço de organização da comunidade acadêmica negra brasileira e de produção, circulação e valorização do conhecimento produzido por pesquisadores/as negros/as.
À frente da ABPN, Zélia integrou uma geração de intelectuais e lideranças negras comprometidas com a construção de uma comunidade acadêmica negra organizada e com a afirmação da produção científica negra no Brasil. Sua atuação como presidenta faz parte da própria história da ABPN e expressa seu compromisso com o enfrentamento ao racismo acadêmico e com a construção de uma universidade comprometida com a diversidade, a equidade e a justiça racial.
Em reconhecimento à sua contribuição, Zélia foi homenageada no VIII Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as (COPENE), reafirmando o lugar de destaque que ocupa na história da intelectualidade negra brasileira. Sua trajetória representa uma geração que abriu caminhos para que outras gerações de pesquisadores/as negros/as pudessem ocupar universidades, produzir conhecimento e disputar os rumos da ciência brasileira.
Zélia também foi uma referência fundamental para pensar as relações entre raça, gênero, classe, educação, cultura, Amazônia e produção de conhecimento, defendendo uma ciência que não se afastasse das lutas concretas da população negra.
Uma das últimas homenagens públicas à professora ocorreu em 18 de agosto, quando participou do plantio de um baobá em sua homenagem no Campus Guamá da UFPA. Escolhida por sua simbologia relacionada à ancestralidade, à memória e à transmissão de saberes, a árvore tornou-se uma imagem potente de seu legado.
Como um baobá, Zélia deixa raízes profundas. Raízes fincadas na Amazônia, no movimento negro, na universidade, na ciência e na luta por justiça racial. E deixa também sementes: nos/as estudantes que formou, nos/as pesquisadores/as que inspirou, nas políticas que ajudou a construir e nas gerações que continuarão sua caminhada.
A ABPN se solidariza com seus familiares, amigos/as, estudantes, colegas, companheiros/as de militância, integrantes do movimento negro, da comunidade acadêmica e com todos/as que tiveram suas trajetórias atravessadas pela presença, pelo pensamento e pela generosidade de Zélia Amador de Deus.
Neste momento de dor, reafirmamos nosso compromisso de preservar e fazer circular sua memória, sua obra e seu legado.
Zélia Amador de Deus, presente!
Seu legado permanecerá vivo na ciência, na educação, na universidade e no movimento negro brasileiro.
Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as – ABPN

