A aprovação de jovens negros e negras do Programa de Iniciação Científica Júnior da Obereri em universidades federais e estaduais marca um avanço histórico na democratização do ensino superior público no Brasil
Jessyka Faustino – Jornalista
A aprovação de bolsistas do Programa de Iniciação Científica Júnior da Olimpíada Brasileira de Educação para as Relações Étnico-Raciais (Obereri) em universidades federais e estaduais de diferentes regiões do Brasil representa um marco simbólico e político para a educação antirracista brasileira. Jovens negros e negras, oriundos da educação básica pública, passam a ocupar o ensino superior público levando consigo trajetórias de pesquisa, engajamento social e formação crítica construídas ainda no período escolar.
A presença desses estudantes nas universidades públicas reafirma a importância de políticas e iniciativas que articulem acesso, permanência e produção de conhecimento desde a educação básica. Em um país onde o ensino superior historicamente foi um espaço restrito às elites, a entrada de jovens negros e periféricos não pode ser compreendida apenas como conquista individual, mas como resultado de processos coletivos de formação, incentivo e reconhecimento.
Nesse contexto, a Obereri se destaca como uma iniciativa estratégica ao promover uma formação científica júnior racialmente e politicamente posicionada. O programa rompe com a lógica de neutralidade da ciência ao afirmar que produzir conhecimento também é um ato político, especialmente quando se trata de enfrentar o racismo estrutural e as desigualdades educacionais. Ao longo da formação, os bolsistas são estimulados a desenvolver projetos de pesquisa conectados às suas realidades, territórios e experiências, fortalecendo o pensamento crítico e a autonomia intelectual.
A aprovação desses estudantes em universidades públicas evidencia o impacto concreto da iniciação científica júnior na ampliação de horizontes acadêmicos e profissionais. Para muitos, trata-se da primeira geração de suas famílias a ingressar no ensino superior, rompendo ciclos históricos de exclusão e reafirmando o direito à universidade pública, gratuita e socialmente referenciada.
A trajetória da bolsista Rebeca, da Escola Estadual do Paraná, sintetiza o significado desse processo. Aprovada na Universidade Federal do Paraná (UFPR), ela destaca os desafios e as potências vivenciadas durante sua participação na Obereri:
“O ano em que participei da OBERERI desenvolvendo meu projeto de iniciação científica foi repleto de desafios. Sendo o mesmo ano do meu vestibular, meus dias eram divididos entre ensino médio, cursinho, pesquisas, liderança social, redação de artigo, ajustes na ideia final do projeto, e outras dezenas de pequenas e grandes ocupações. Foi difícil encontrar um equilíbrio, mas eu sabia que a UFPR me levaria a caminhos inimagináveis dentro do meu interesse na comunicação popular, e pude usar as oportunidades de pesquisa dentro da Olimpíada para conhecer e me aprofundar na área enquanto ainda estava na escola. A aprovação na Universidade Federal do Paraná significou muito pra mim e para todos aqueles que me cercam (quebrar um ciclo não é tão fácil quanto parece). O processo longo e árduo era apaziguado sempre que eu percebia pessoas como eu, negras e periféricas, ocupando lugares no ensino superior. Me fez ver a ideia de crescer academicamente como algo possível. Os profissionais envolvidos nas aulas da OBERERI, na posição de formadores, sempre serão vistos por mim como inspirações.”
O relato de Rebeca evidencia como a formação científica oferecida pela Obereri não se limita ao desenvolvimento técnico da pesquisa, mas atua diretamente na construção de pertencimento, referência e projeção de futuro. Ver pessoas negras ocupando a universidade pública transforma a ideia de sucesso acadêmico em uma possibilidade concreta e coletiva.
Ao celebrar as aprovações de seus bolsistas, a Obereri reafirma seu compromisso com uma educação antirracista que articula ciência, justiça social e democratização do conhecimento. A iniciativa demonstra que investir na formação científica de jovens negros e negras desde a educação básica é um caminho fundamental para transformar o perfil do ensino superior brasileiro e fortalecer um projeto de país comprometido com a equidade racial, a democracia e a produção de saberes plurais.
Para a Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), essas conquistas reforçam a importância de políticas educacionais e iniciativas que não apenas garantam o acesso à universidade, mas que preparem estudantes historicamente marginalizados para ocupá-la de forma crítica, qualificada e protagonista.

