
A Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), comprometida com a produção e a divulgação do conhecimento científico, o enfrentamento ao racismo e a valorização das intelectualidades negras, manifesta seu apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. Este posicionamento expressa a defesa da democracia, da educação pública, da ciência e de um projeto de país que tenha a igualdade racial como compromisso permanente.
A trajetória da ABPN integra as lutas históricas do movimento negro pelo direito à educação, pelo reconhecimento de nossos saberes e pela transformação das estruturas que sustentam as desigualdades brasileiras. Nossa atuação parte de uma compreensão fundamental: o racismo organiza oportunidades, distribui privilégios e impõe obstáculos à participação da população negra nos espaços de produção do conhecimento e de decisão política.
Defender a democracia exige enfrentar essa realidade. Não há democracia plena enquanto a cor da pele permanece determinante para as condições de vida, o acesso a direitos e as possibilidades de futuro. A igualdade racial precisa orientar as escolhas políticas, os investimentos públicos e o funcionamento das instituições.
A presença de pesquisadoras e pesquisadores negros nas universidades, nos institutos de pesquisa e nas diferentes áreas do conhecimento é resultado de mobilização coletiva e de disputas por reconhecimento e direitos. Essa presença amplia perguntas, transforma perspectivas e produz conhecimentos indispensáveis à compreensão do Brasil. As intelectualidades negras contribuem para a ciência em toda a sua diversidade, ao mesmo tempo que enfrentam o apagamento de suas trajetórias e a deslegitimação de suas contribuições.
Por isso, a defesa da ciência brasileira deve incorporar o enfrentamento às desigualdades raciais que atravessam sua organização. Defendemos financiamento público estável, autonomia universitária, liberdade de pesquisa e condições dignas de trabalho. Defendemos, igualmente, ações afirmativas no ingresso, na permanência e na progressão acadêmica, com atenção à pós-graduação, à distribuição de bolsas, ao acesso a recursos de pesquisa e à participação nos espaços de gestão.
A educação pública ocupa lugar central nesse projeto. Da educação básica à pós-graduação, precisamos de instituições capazes de assegurar aprendizagem, participação e pertencimento. Uma educação comprometida com a democracia deve reconhecer a história e as culturas afro-brasileiras, africanas e indígenas, enfrentar o racismo cotidiano e valorizar os sujeitos e os territórios que constituem nosso país.
A educação das relações étnico-raciais demanda políticas permanentes de formação docente, produção de materiais, acompanhamento e financiamento. Sua efetivação precisa integrar os currículos, as práticas pedagógicas e a gestão educacional, com responsabilidade compartilhada entre os sistemas de ensino e as instituições formadoras.
A ABPN reafirma também a importância dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros, dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas e dos grupos correlatos. Seu fortalecimento é essencial para articular ensino, pesquisa e extensão, aproximar instituições e comunidades e sustentar práticas de educação antirracista.
Nosso apoio à reeleição de Lula está vinculado à defesa das condições democráticas necessárias para fazer avançar essa agenda. Rejeitamos o autoritarismo, o negacionismo científico, a violência política e as tentativas de silenciar movimentos sociais e desqualificar a produção acadêmica. A liberdade de ensinar, pesquisar e participar da vida pública constitui uma condição indispensável à construção de uma sociedade justa.
Esse apoio preserva nossa autonomia e nosso compromisso com a avaliação crítica das políticas públicas. Reconhecer a importância de um projeto político não significa renunciar à cobrança por respostas concretas às demandas da população negra. O enfrentamento ao racismo exige prioridade, orçamento, participação social e mecanismos de acompanhamento.
Nesse sentido, defendemos:
- O fortalecimento das políticas de ações afirmativas, com condições efetivas de acesso, permanência e conclusão dos estudos.
- A ampliação do financiamento da educação pública, da ciência e da tecnologia, com medidas que enfrentem as desigualdades regionais e raciais.
- O apoio à produção científica de pesquisadoras e pesquisadores negros em todas as áreas do conhecimento.
- A implementação contínua da educação das relações étnico-raciais e a valorização dos profissionais da educação.
- O enfrentamento ao racismo institucional e à violência que atinge a população negra, especialmente sua juventude.
- A garantia dos direitos das comunidades quilombolas, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.
- A participação das organizações negras na formulação, execução e avaliação das políticas públicas.
- O fortalecimento da cooperação científica e educacional com países africanos, latino-americanos e caribenhos.
Defendemos uma soberania nacional construída com justiça social, reconhecimento da diversidade e valorização dos conhecimentos produzidos por nosso povo. O futuro do Brasil depende de sua capacidade de enfrentar as desigualdades históricas e assegurar que a população negra participe plenamente da definição dos rumos do país.
Ao manifestar apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, a ABPN reafirma seu compromisso com uma democracia que se realize na vida cotidiana, com uma ciência socialmente comprometida e com uma educação pública antirracista.
Pela democracia, pela ciência e pela soberania nacional.
Pela educação pública, pelas ações afirmativas e pela igualdade racial.
Por um Brasil em que a população negra tenha assegurados seus direitos, sua dignidade e seu futuro.
Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as — ABPN
2º de outubro de 2026

