NOTA DE SOLIDARIEDADE E INDIGNAÇÃO

Em memória de Jason Arday: quando permanecer na universidade também se torna uma luta pela vida

A Associação Brasileira de Pesquisadoras e Pesquisadores Negros (ABPN) manifesta sua profunda solidariedade à família, aos amigos, às amigas, aos estudantes e à comunidade acadêmica que conviveram com o professor Jason Arday, professor de Sociologia da Educação da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, falecido aos 41 anos.

Jason Arday tornou-se, em 2023, o professor negro mais jovem da história da Universidade de Cambridge. Sua trajetória acadêmica, sua presença em uma das instituições universitárias mais antigas e prestigiadas do mundo e seu trabalho no campo da educação e das desigualdades raciais adquiriram uma dimensão que ultrapassava sua história individual. Para comunidades negras historicamente afastadas dos espaços de poder e de produção legitimada do conhecimento, sua presença também carregava a força simbólica de uma conquista coletiva.

Nas semanas que antecederam sua morte, Jason Arday esteve no centro de uma intensa exposição pública, desencadeada por questionamentos relacionados à sua trajetória acadêmica e por acusações de plágio, que ele negava. O episódio alcançou rapidamente os meios de comunicação e as redes sociais, produzindo uma sucessão de matérias, comentários, acusações e julgamentos públicos. Em sua manifestação ao deixar a Universidade de Cambridge, Arday afirmou que as acusações, especulações e comentários públicos haviam produzido profundo impacto sobre ele e sobre as pessoas que amava.

É fundamental afirmar com absoluta responsabilidade: não cabe à ABPN determinar se houve ou não plágio na produção acadêmica do professor Jason Arday. Questões dessa natureza devem ser submetidas aos procedimentos acadêmicos e institucionais adequados, com direito à defesa, análise criteriosa das evidências e respeito às normas que regem a integridade científica.

O que nos mobiliza é outra questão, incontornável para uma associação de pesquisadoras e pesquisadores negros: o que acontece quando a suspeição sobre um intelectual negro deixa os limites de uma apuração acadêmica e se transforma em exposição pública, perseguição, espetacularização e desumanização?

É preciso perguntar por que determinados corpos, quando ocupam lugares historicamente interditados, parecem permanecer submetidos à exigência permanente de provar que merecem estar ali. Para pesquisadores e pesquisadoras negros, chegar à universidade nunca significou simplesmente atravessar seus portões. Significou e ainda significa  enfrentar estruturas que historicamente definiram quem poderia produzir conhecimento, quem poderia ser reconhecido como intelectual, quem poderia ensinar, pesquisar, orientar e ocupar posições de prestígio e poder.

Ela nos convoca a pensar sobre os efeitos concretos do racismo na vida acadêmica. Convoca-nos a discutir os limites entre investigação legítima e linchamento público; entre responsabilidade acadêmica e perseguição; entre crítica e desumanização. Sobretudo, obriga-nos a perguntar pelas condições de existência e permanência de pessoas negras em instituições que ainda carregam profundas marcas da colonialidade e do racismo. O caso de Jason não pode ser compreendido apenas como um acontecimento distante, ocorrido em uma universidade britânica.

O Brasil também precisa olhar para si.

Nas últimas semanas, acompanhamos com enorme preocupação situações envolvendo docentes negros e negras aprovados em concursos públicos por meio das políticas de cotas raciais e que, mesmo depois de aprovados, nomeados ou empossados, passaram a enfrentar questionamentos e decisões institucionais capazes de colocar em risco o direito conquistado por meio de políticas públicas de ação afirmativa. Esses acontecimentos exigem atenção porque revelam que o racismo institucional pode operar também por meio de procedimentos administrativos, interpretações aparentemente neutras, questionamentos sucessivos e mecanismos burocráticos que terminam por produzir efeitos racialmente desiguais. Não podemos naturalizar uma dinâmica na qual pessoas negras precisam provar indefinidamente sua legitimidade para permanecer nos lugares que conquistaram.

As políticas de ações afirmativas e de cotas raciais não constituem concessões. São conquistas históricas do Movimento Negro brasileiro e instrumentos indispensáveis de enfrentamento às desigualdades produzidas por séculos de escravização, colonialismo e racismo estrutural. Defender essas políticas significa defender a democratização efetiva das universidades, da ciência, da pesquisa e do serviço público brasileiro.

À ABPN interessa, portanto, afirmar que a presença negra na universidade não pode continuar sendo tratada como presença sob suspeita.

Somos pesquisadoras e pesquisadores. Somos docentes. Somos intelectuais. Produzimos ciência, conhecimento, tecnologias, metodologias, epistemologias, currículos e outros modos de compreender e transformar o mundo. Nossa presença nas universidades brasileiras e internacionais não é resultado de benevolência institucional: é resultado de trajetórias, lutas coletivas e direitos conquistados.

Ao mesmo tempo, precisamos falar sobre o cuidado.

Precisamos construir instituições acadêmicas capazes de reconhecer que por trás de currículos, títulos, concursos, avaliações, pareceres, índices de produtividade e disputas intelectuais existem vidas. A defesa do rigor acadêmico e da integridade científica jamais pode ser incompatível com a defesa da dignidade humana. Nenhuma universidade pode considerar aceitável que seus procedimentos, seus silêncios ou suas formas de exposição contribuam para ambientes de violência, adoecimento e destruição subjetiva.

Neste momento de profunda tristeza, a Associação Brasileira de Pesquisadoras e Pesquisadores Negros (ABPN) manifesta solidariedade à família e às pessoas próximas de Jason Arday e se soma às vozes que reivindicam uma reflexão profunda sobre as circunstâncias que envolveram seus últimos dias.

Também manifestamos nossa solidariedade aos pesquisadores, pesquisadoras e docentes negros e negras que, no Brasil, enfrentam processos de questionamento de seus direitos, particularmente aqueles relacionados ao ingresso e à permanência no serviço público por meio das políticas de ações afirmativas.

Por ele e por todas e todos que vieram antes de nós, reafirmamos: seguiremos defendendo a vida, a dignidade, a ciência, as ações afirmativas e o direito inegociável de pessoas negras produzirem conhecimento e ocuparem todos os espaços da sociedade.

Jason Arday – Presente!!!!!!!

Associação Brasileira de Pesquisadoras e Pesquisadores Negros – ABPN
Agosto de 2026

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