NOTA PÚBLICA EM APOIO À PROFESSORA ZARA FIGUEIREDO

Nenhuma mulher negra deve ser invalidada por ocupar espaços de poder

Diretoria da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as – ABPN
Nathália Maria Rodrigues Azevedo – RedeEducom/ASCOM/ABPN

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Foto: João Stangherlin / Folha BV

A Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), entidade que há 26 anos atua na produção de conhecimento comprometido com a justiça racial, a democracia e a defesa dos direitos da população negra, manifesta seu mais veemente repúdio aos ataques racistas, misóginos e desumanizadores dirigidos à professora Zara Figueiredo, secretária de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (SECADI/MEC), após sua participação em entrevista ao SBT News.

Os ataques dirigidos à secretária não atingem apenas uma mulher negra que ocupa um cargo de relevância no Ministério da Educação. Eles expressam uma prática histórica de deslegitimação, silenciamento e invalidação de pessoas negras — especialmente de mulheres negras — que ocupam espaços de liderança, decisão, formulação de políticas públicas e produção de conhecimento.

Nenhuma mulher negra deve ser constrangida, desumanizada ou violentada por exercer, com competência e legitimidade, funções para as quais está plenamente qualificada. O racismo e a misoginia seguem operando como mecanismos de exclusão destinados a questionar a autoridade, a capacidade intelectual e o direito das mulheres negras de ocupar espaços historicamente negados à população negra.

O episódio envolvendo Zara Figueiredo evidencia que a violência racial permanece estruturando as relações sociais e institucionais brasileiras. À medida que mulheres negras conquistam espaços de representação e poder, intensificam-se também as tentativas de desqualificar suas trajetórias, sua imagem e sua legitimidade por meio de ataques que buscam reafirmar antigas hierarquias raciais e de gênero.

Essa realidade não é isolada. Parlamentares, ministras, secretárias de Estado, reitoras, magistradas, pesquisadoras, professoras, jornalistas e tantas outras mulheres negras têm relatado, reiteradamente, experiências de violência racial e de misoginia em razão de ocuparem posições de visibilidade e decisão. Trata-se de um padrão de violência que busca impedir que pessoas negras exerçam plenamente seus direitos de participação política, intelectual e institucional.

Como entidade científica nacional, a ABPN reafirma que o debate democrático pressupõe o respeito inegociável à dignidade humana. Divergências de ideias são próprias de uma sociedade plural e democrática. Contudo, ataques motivados pela raça, pelo gênero, pela aparência ou pela identidade não constituem liberdade de expressão ou manifestação legítima de opinião. São práticas discriminatórias que atentam contra os direitos humanos e devem ser reconhecidas e enfrentadas como expressões do racismo e da violência de gênero.

Nossa história demonstra que a denúncia sempre foi instrumento de resistência. Assim como Esperança Garcia, no século XVIII, utilizou a escrita para denunciar as violências impostas à população negra escravizada, seguimos afirmando que o silêncio jamais será uma opção diante do racismo. Dizer basta continua sendo um compromisso político, ético e científico.

A ABPN manifesta sua solidariedade à professora Zara Figueiredo e a todas as mulheres negras que, diariamente, enfrentam o racismo, a misoginia e o sexismo por ocuparem espaços historicamente negados à população negra.

Defender a presença de mulheres negras na educação, na ciência, na gestão pública, na política e em todos os espaços de decisão é defender a democracia, a produção de conhecimento comprometida com a justiça social e a construção de um país mais igualitário. Desde sua fundação, a ABPN reafirma que esses espaços devem ser garantidos, respeitados e seguros para todas as mulheres negras.

Reiteramos a necessidade de que os ataques sejam rigorosamente investigados e que seus responsáveis sejam identificados e responsabilizados nos termos da legislação brasileira. O enfrentamento ao racismo exige compromisso das instituições públicas, das plataformas digitais e da sociedade como um todo.

Basta de racismo. Nenhuma mulher negra deve ser invalidada, atacada ou desumanizada por existir, por produzir conhecimento, por liderar ou por ocupar espaços de poder. Combater o racismo e a misoginia é condição indispensável para a consolidação da democracia e da justiça racial.

Diretoria da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as – ABPN

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